17 de fevereiro de 2022

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Crítica | A Jaula escancara o Brasil reacionário de hoje

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A Jaula

O cinema nacional é repleto de filmes que discutem a violência. Esse mal cotidiano na vida dos brasileiros já foi retratado em filmes como Cidade Deus (2002) e continua a fazer parte da realidade dentro e fora das telas. Vinte anos depois do lançamento de um dos maiores sucessos cinematográficos do cinema, A Jaula chega às telonas, nesta quinta-feira (17), para mostrar um novo olhar sobre a temática. Aqui o espectador irá confrontar um retrato da violência que existe dentro do indivíduo.

A estreia de João Wainer à frente de um longa-metragem ficcional foi regada de críticas a cerca dos tempos atuais. O diretor não mede esforços para deixar claro seu posicionamento quanto aos discursos de ódio que têm assolado o mundo com a influência da extrema direita. Pensando no contexto brasileiro, Wainer escancara os horrores do preconceito e da raiva. Enquanto Padilha incitou o ódio entre as classes, em Tropa de Elite (2007) e Tropa de Elite 2 (2010), o diretor mostra o resultado desse sentimento em A Jaula.

Djalma (Chay Suede) encontra um carro luxuoso estacionado na rua e vê a oportunidade de roubá-lo. O plano dá certo até que o jovem tenta sair do veículo e se vê preso. Sem nenhuma alternativa aparente, sua jornada claustrofóbica se inicia seguindo os comandos de um famoso médico (Alexandre Nero) que fez essa armadilha. Agora Djalma e o médico farão um jogo de gato e rato até o último minuto. Sem água, comida e contato com o mundo exterior, será que ele vai conseguir sobreviver?

A maior reflexão da produção talvez não seja se ou qual dos personagens vivem no final, mas quais foram os caminhos que os levaram até esse confronto. O personagem de Chay é o retrato da marginalização social enquanto a persona que Nero dá vida é o espelho de discursos como “bandido bom é bandido morto”. A Jaula brinca com a visão do espectador, fazendo com que ele se sensibilize com a situação de Djalma, figura que socialmente seria descartada de imediato. Na mesma medida, o longa traz uma mostra do que a raiva e o preconceito podem fazer com o tal “cidadão de bem”, que tanto se ouve falar atualmente.

Talvez a principal força desta história seja a inversão de papéis e o choque que isso causará em parte do público. O ladrão se torna vítima do assaltado. E não apenas é julgado sob uma justiça própria, mas é torturado cruelmente pelas mãos de quem jurou salvar vidas. O confronto desse sentimento é o ponto alto do roteiro de Mariano Cohn e Gastón Duprat em seu produto original, o filme argentino 4×4 (2019). Aqui, a adaptação de João Cândido Zacharias dá a cara do Brasil ao assunto, com direito a presença do jornalismo sensacionalista e marginalizante que pode ser visto por aí.

A Jaula

Em contrapartida, existe um excesso no discurso que está tentando ser esclarecido no filme. Talvez por medo de ficar no raso, talvez por medo de cometer os mesmos erros de Padilha, A Jaula se repete ao longo da sessão. Apesar do discurso ser 100% claro, existe uma insistência que gera essa sensação de sobra. O público consegue entender desde o primeiro momento que o médico aparece qual é o posicionamento da produção. E, ainda assim, o roteiro de Zacharias se repete. Seja com o intuito de marcar os excessos dos ditos “cidadãos de bem” ou não, tem momentos que isso desgaste o enredo.

Além disso, a dilatação inicial que existe no filme é um ponto a ser pensado. É compreensível a necessidade de criar a ambiência e de começar a gerar a compaixão do público pelo personagem principal, mas, ainda assim, esse primeiro momento poderia ser mais enxuto. Fora essa pontuação, A Jaula funciona bem como um thriller sufocante. Se a dilatação inicial fosse corrigida e o discurso se refinasse, esta seria uma adaptação perfeita.

Mas o campo que realmente eleva a discussão vem das atuações. Chay Suede (Minha Fama de Mau, de 2019, e Amor de Mãe, 2019-2021) está fantástico. O ator é a força motriz que conduz o espectador durante a sessão. E é graças a sua entrega que, mesmo com questões, o filme consegue funcionar. Mas sem um colega de peso para dar vida ao seu algoz, não seria possível que Chay brilhasse tanto. A entrega de Alexandre Nero (João, o Maestro, de 2017, e Albatroz, de 2019) também é louvável. Existe algo de generoso em sua potente atuação. Ele consegue entregar tudo e ainda alavancar seu parceiro em cena. Fora que a dinâmica dos dois, comandada por Wainer, é milimetricamente pensada e o resultado é de tirar o fôlego.

A Jaula é um filme necessário para os dias atuais. Num mundo onde pessoas são brutalmente assassinadas na rua por cobrarem seus direitos ou onde os ditos “cidadãos de bem” resolvem fazer “justiça” com as próprias mãos, essa produção traz uma reflexão essencial. É preciso estar preparado porque o que é mostrado pela produção é brutal e machuca porque o público sabe que é real. E aqui vai mais um ponto a ser ponderado: será que a produção será bem recebida? E se não for, será que é pelo que o filme deixou a desejar ou pelo simples fato dele espremer as feridas da crueldade de uma parcela da população que se vê como paladina da justiça e das boas atitudes? Seja como for, A Jaula, apesar dos excessos, entrega um thriller que vale muito a pena conferir.

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