25 de fevereiro de 2022

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Crítica | Mães Paralelas: Almodóvar traz o caos da maternidade e expõe feridas históricas

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O longa Mães Paralelas acabou de sair no Netflix e chama atenção pelo elenco, direção e, principalmente, pela surpreendente indicação de Penélope Cruz ao Oscar de melhor atriz esse ano.

A parceria entre Penélope Cruz e Almodóvar é antiga e já gerou outras produções de sucesso, como Carne Trêmula (1997), Tudo sobre a minha mãe (1999) e Dor e Glória (2019), mas será que Mães Paralelas conseguiu a mesma atenção e expressão?

Com uma narrativa peculiar, que beira o cult, a história que se passa no coração de Barcelona, onde Janis (Penélope) vive de sua paixão, a fotografia. E durante um trabalho acaba se envolvendo com um cliente.

A história central do filme, retrata o encontro entre as duas mulheres grávidas e solteiras, Janis e Ana (Milena Smit). Que vivem nos extremos de suas vidas: Janis grávida na meia idade e Ana uma adolescente assustada. Juntas elas compartilham os desafios do parto e criam uma conexão.

Mas a história não para por ai, em meio aos desafios da maternidade, Janis luta para resolver o desaparecimento de seus antepassados, a qual acredita terem sido vítimas de um governo opressor e que tenham sido assassinados. Esse fato e tratado com muita sutileza no filme, mas não perde a força e impacto que tem, uma característica comum do diretor, que retrata cotidianos ao mesmo tempo que aborda temas viscerais.

Um defeito que nota-se ao longo do filme é o excesso de foco de cena no personagem que fala, transformando o cenário ao fundo em uma montagem forçada e mal feita. Fica-se incerto se essa escolha foi intencional ou se foi a maneira que o diretor encontrou de gravar em meio a restrições pandêmicas.

Se não bastasse toda essa construção de narrativa perfeita e cenários falhos, a história ainda leva ao questionamento acerca da maternidade da personagem, que em determinado momento e levada a questionar-se se seria de fato mãe da criança. Situação que se expande quando Janis reencontra Ana alguns anos depois e decide fazer um teste de maternidade entre as 3 e descobre que teve sua filha trocada na maternidade com a de Ana. Não apenas isso mas a história leva a um dilema ético e moral, quando Ana conta a Janis que sua filha (filha de Janis, na verdade), faleceu ainda nova, de morte súbita. Janis passa uma boa parte do filme em conflito entre fazer o certo e seguir seu coração.

É muito interessantes as escolhas da direção em seguir esse rumo, pois retrata um problema que acontece mundo afora – da troca de bebês, mas que nos leva a ter dúvidas quanto a postura que a protagonista deve ter em relação a novidade indesejada.

O desfecho acaba sendo óbvio e surpreendente ao mesmo tempo. Janis revela a Ana sobre a troca, levando Ana a se afastar por um tempo de Janis, levando a criança consigo. Mas poucos meses se passam e Ana aceita permitir que Janis faça parte de suas vidas. E em outro momento direto a essa reaproximação, Janis recebe a notícia sobre as escavações em busca de respostas e o longa se encerra com todos na zona de escavação e a descoberta de ossos em uma disposição semelhante a uma vala, trazendo assim desfecho para a historia que Janis carregava sobre seu passado.

Cena final das famílias de pessoas desaparecidas convidadas a fazer uma participação no longa

No fim das contas, essa mistura improvável parecia impossível de dar certo, mas o longa conseguiu navegar por todas as diferenças que construiu e trouxe como mensagem que nada fica escondido para sempre e que de fato, a verdade sempre vem à tona. Penélope Cruz entregou muito a obra e mereceu sua indicação, mas é muito improvável que consiga levar a estatueta, devido à outras atuações tão poderosas quanto à dela.

Nota 07.

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