6 de setembro de 2022

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Crítica | Men: Faces do Medo mescla fantasia e horror em narrativa sobre machismo estrutural e toxicidade

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Men: Faces do Medo (2022)

O cinema de horror moderno trouxe para as telonas a prova de que o gênero não sobrevive apenas com filmes recheados de sustos vazios e excesso de sangue ou violência. A tradução de um medo, uma situação ou até mesmo um sentimento são possibilidades num filme do gênero onde a preocupação maior é o subtexto e não a bilheteria. Assim, as ansiedades, os temores e as dores do cotidiano se tornam pautas frequentes em obras de horror que se permitem ir além do óbvio.

A produtora e distribuidora A24 é uma das principais representantes de Hollywood que traz para o circuito comercial, longas-metragens que tenham as marcas do horror, sem perder de vista a profundidade das discussões e dos dilemas humanos. A produtora que já trouxe aos cinemas projetos como Ex Machina: Instinto Artificial (2014), Hereditário (2018), Midsommar: O Mal Não Espera a Noite e O Farol (ambos de 2019) distribui mais um título com esse caráter metafórico e reflexivo. Com a estreia marcada para esta quinta-feira (8), Men: Faces do Medo entrará para o hall das gloriosas obras de horror distribuídas pela produtora.

Após o suicídio de seu ex marido, Harper (Jessie Buckley) decide se isolar numa casa do campo para se recuperar. Nessa tentativa de fugir do caos que sua vida se encontra, a jovem descobre que seu pior pesadelo pode surgir a qualquer momento. Enquanto tenta buscar paz, Harper se vê perseguida por um homem no meio da mata. O episódio pavoroso começa a escalar quando ela percebe que existe um mal ainda maior vagando por perto.

Men: Faces do Medo (2022)

É impossível refletir sobre uma obra sem pensar em seu criador e pensar em Men: Faces do Medo é ver o trabalho de Alex Garland (Dredd, de 2012, e Aniquilação, de 2018) ganhando cada vez mais corpo. O cineasta e roteirista inglês foi o responsável, pela segunda vez, por assumir roteiro e direção de um longa. Men, como seu terceiro filme, já demonstra o amadurecimento no fazer e criar cinematográfico. É graças a essa intensidade que a produção alcança um lugar inimaginável.

Diferente de seus filmes anteriores, Men: Faces do Medo trabalha mais com a materialidade da discussão. Apesar do cunho metafórico e da construção fantástica de um dos temores do cotidiano feminino, Garland consegue deixar claro o que quer falar, sem, em nenhum momento, empobrecer sua discussão. A narrativa é perspicaz ao não ir direto ao ponto dos acontecimentos que cercam o suicídio do ex marido de Harper para que a tensão e a antecipação sejam mantidas.

A sacada da dilatação do relacionamento tóxico da personagem de Jessie Buckley (Estou Pensando em Acabar com Tudo, de 2020 e A Filha Perdida, de 2021) através da montagem, somado pano de fundo fantástico são o ponto alto do roteiro de Men: Faces do Medo. A assertividade de Garland é impecável. Ele consegue, ainda que no lugar de observador da situação, descrever com emoção, sensibilidade e força as dores de uma mulher que está tentando não se afogar nas memórias de um relacionamento abusivo.

Men: Faces do Medo (2022)

Com esse subtexto, o cineasta inglês é capaz de chegar num patamar de um horror com trama e um subtexto de tirar o fôlego. E, o maior mérito de Garland com Men: Faces do Medo é lembrar que o maior horror da vida de uma pessoa pode ser o outro. A metáfora que brinca com a toxicidade masculina enquanto cria um contexto místico por trás merece ser aplaudida. O resultado não poderia ser outro que não um longa coeso e completo, honrando as possibilidades do gênero na atualidade.

No entanto, é preciso dar crédito ao elenco principal, formado apenas por Jessie e Rory Kinnear (Penny Dreadful, de 2014 a 2016, e Nossa Bandeira é a Morte, de 2022), porque, sem eles, esta produção não teria alcançado voos tão altos. A entrega do casal de atores é inquestionável. A dinâmica entre eles em cena é uma linda coreografia de emoções. E, ainda que Buckley dê o seu melhor e seja o destaque de Men: Faces do Medo, o trabalho de Kinnear e suas múltiplas interpretações é simplesmente brilhante. Sua performance enriquece o resultado da produção.

E é neste ballet de horror que Alex Garland traz para o público mais uma produção impactante. O machismo estrutural escancarado de uma forma que jamais foi mostrada antes. É essa capacidade de criar imagens aterradoras e um texto limpo que fazem de Men: Faces do Medo um destaque em meio às novas produções do gênero. Além, é claro, de se tornar mais um exemplo de qualidade em que mostra ao espectador que o horror pode ser uma metáfora perfeita para descrever – seja fantasiosamente ou não – os temores, as dores e os medos da humanidade.

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