4 de agosto de 2022

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Crítica | Trem-Bala brinca com violência excessiva em adaptação de romance japonês

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Bullet Train (2022)

Seja na literatura, política ou nas mídias, a observação, discussão e fascinação do que há de violento no ser humano nunca deixou de ser foco para a sociedade. No caso das narrativas seriadas e cinematográficas, a temática é abraçada de acordo com o período e a demanda. Especificamente no cinema, a exclusão do senso abriu portas para novas possibilidades nos filmes. Hoje, o vermelho vibrante do sangue se tornou comum nas telonas em diversos gêneros – especialmente nos projetos de terror e ação.

Filmes slashers, gores, de artes marciais e perseguições foram os que mais ganharam espaço com a banalização da violência. Assim, longas-metragens como as criações de Quentin Tarantino (Os Oito Odiados, de 2015, e Era Uma Vez em… Hollywood, de 2019) se tornaram possíveis, bem recebidas e aclamadas pelo público e crítica. Graças ao diretor, roteirista e produtor americano, produções como as jornadas de vingança estreladas por Liam Neeson (trilogia Busca Implacável, de 2008 a 2014) são comuns e rentáveis para os grandes estúdios.

Projetos sobre agentes secretos ou federais esmurrando os inimigos, como os longas do produtor e diretor Antoine Fuqua (O Protetor 2, de 2018, e O Culpado, de 2021), e filmes de super-heróis mais explícitos, como Watchmen (2009) e Deadpool (2016), são algumas das vertentes mais vistas nas últimas décadas graças à renovação que Tarantino trouxe para o gênero. E é sob essa lógica que Trem-Bala chega aos cinemas brasileiros, nesta quinta-feira (4), com os caminhos abertos para se tornar um sucesso de bilheteria.

Baseado no livro de suspense satírico de Kōtarō Isaka, Bullet Train (título original) é um longa de ação repleto de explosões, sangue e lutas impressionantes. Produzido por Fuqua e dirigido por David Leitch (Atômica, de 2017, e Deadpool 2, de 2018), o filme é uma ação cômica que bebe da fonte de sucessos anteriores do gênero como a franquia John Wick (desde 2014), Em Ritmo de Fuga (2017) e Vingança a Sangue-Frio (2019). Tanto no tom como no formato, Trem-Bala é mais uma produção que investe seus esforços em prender a atenção do público a partir de uma violência absurda e exagerada.

Joaninha (Brad Pitt) é convocado para o que seria uma missão simples, de acordo com Maria Beetle (Sandra Bullock), sua contratante. Quando o assassino azarado começa a procurar a mala que foi contratado para achar, percebe que não seria tão fácil quanto o esperado. Ao longo da viagem de Tóquio a Kyoto, Joaninha se depara com outros assassinos ainda mais temidos e perigosos. Logo ele percebe que a viagem vai ser repleta de surpresas, confusões e mortes.

A ultra violência à la Pulp Fiction: Tempo de Violência (1994) é o fator mais marcante de Trem-Bala. A produção é repleta de cenas absurdas e claramente exageradas que levam o público às risadas.  Apesar da comicidade constante na narrativa, ela consegue absorver essa característica de forma eficiente e fluida. Num minuto o espectador está extasiado com a qualidade das sequências de luta, no outro, está rindo de alguma piada besta, trocadilho ou referência inusitados ou das mortes surreais. O mérito de Zak Olkewicz (Rua do Medo: 1978 – Parte 2, de 2021) está justamente no equilíbrio da ação com a comédia criada em seu roteiro.

O longa, no entanto, peca no excesso de tempo. O roteiro, apesar de acertar em seu estilo satírico, prolonga por mais tempo do que o necessário a sua simples narrativa. E o problema do roteiro não está na simplicidade de sua história, mas no alongamento de algo que não tinha mais o que entregar. Os 15 minutos finais de Trem-Bala são sucessões de cenas com mortes absurdas. Neste sentido, Olkewicz falha em entregar um projeto com uma base totalmente lapidada.

Mesmo com os deslizes no roteiro, Trem-Bala ainda é uma história de desventuras violentas e exageradas que prende o público por bastante tempo. O seu elenco, repleto de rostos conhecidos, como Joey King (A Barraca do Beijo 3, de 2021, e Ainda Estou Aqui, de 2022), Aaron Taylor-Johnson (Vingadores: A Era de Ultron, de 2015, e King’s Man: A Origem, de 2021) e Michael Shannon (A Forma da Água, de 2017, e Entre Facas e Segredos, de 2019), entregam um resultado que agrada com seus personagens caricatos. A disfuncionalidade de cada personagem é introduzida e conduzida sob essa rege do excesso e da sátira, complementando o teor da produção.

No entanto, a escolha deste elenco fez com que a produção tenha recebido críticas. Devido ao protagonismo de um elenco branco, foi questionada a escolha do estúdio em manter a história com o pano de fundo no Japão. A crítica vem justamente do lugar de levantar a questão do por quê uma história adaptada de um romance japonês, que se passa no Japão, tem uma representativa tão pequena e secundária. No fim dessa reflexão, o filme levanta o questionamento do uso do cenário apenas para criar um teor do que, para Hollywood, pode ser o “exótico” em detrimento de um contexto com mais substrato por trás.

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