5 de fevereiro de 2022

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Pânico: Entenda o que fez o slasher sobreviver por 25 anos

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Pânico

O sucesso de Pânico (2022) é indiscutível. O quinto filme da franquia chegou aos cinemas num mês pouco movimentado para lançamentos aguardados e, ainda assim, tem feito recordes. O longa foi o responsável por desbancar Homem-Aranha: Sem Volta para Casa e assumir o posto de filme mais assistido no mundo. E, para além dos mais de 108 milhões de dólares já arrecadados pela produção, vem filme novo por aí.

Após Neve Campbell e os diretores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett afirmarem que participariam de um novo projeto, foi anunciado, nesta quinta-feira (3), que o sexto Pânico vai acontecer. A luz verde foi dada pela Spyglass Media Group e Paramount Pictures e a previsão de gravações são para o verão deste ano. Ou seja, se você é fã do Ghostface, se prepare para mais matanças do assassino mascarado no ano que vem.

E o que justificaria essa força monumental de uma franquia de terror que vive há mais de 20 anos? Além do amor dos fãs, a sagacidade da produção é o que sempre a manteve viva desde o seu lançamento em 1996. O uso da expertise sobre o próprio subgênero dos filmes fez com que cada uma das cinco produções se destacasse de alguma forma. Assim, Pânico continua a se manter vivo e forte, pronto para um bom susto.

Pânico

“O passado não está morto”

Para que os meta-slashers de hoje possam correr, o longa-metragem clássico de John Carpenter teve que andar quilômetros. E tudo começou com um grito aterrorizante dado pela eterna Laurie Strode, interpretada por Jamie Lee Curtis, em Halloween (1978). E foi o estrondoso sucesso do longa que fez com que sua fórmula fosse replicada ao cansaço nas duas décadas subsequentes.

Por conta disso, nos meados dos anos 1990, o público já estava saturado com a repetição do subgênero e ele se tornou uma bomba-relógio pronta para explodir. Mas, para a sorte de todos, Wes Craven surgiu com suas escolhas corajosas e surpreendentes para salvar o slasher. Wes, ao lado de Kevin Williamson, inovou as possibilidades das narrativas de terror com Pânico (1996). A parceria entre o diretor e o roteirista mudou o curso da história do cinema.

Essa inovação, trazida por Craven e Williamson, surgiu com o inteligente uso da metalinguagem sobre seu próprio gênero e subgênero cinematográficos. Esse discurso metalinguístico, somado ao terror gerado sobre os temores da época (a alta da violência, um “boom” de serial killers etc), resultou num filme pronto para aterrorizar um geração. Só que Pânico foi além. A franquia ultrapassou gerações e se manteve viva e próspera graças a sua criatividade, atualidade e humor.

Pânico

“Qual o seu filme de terror favorito?”

Para que a franquia se mantivesse com resultados positivos entre público e crítica, Pânico precisou se reinventar a cada filme. Fosse nas mortes, nos sustos, nas referências ou nas revelações dos assassinos, toda produção nova precisou chamar a atenção do espectador de um jeito diferente. No primeiro filme, Wes e Kevin conquistaram o público com a inovação do discurso e da mescla de tons. Ora se fazia uma piada sobre outro longa de terror e, no momento seguinte, alguém era assassinado de uma forma aterrorizante.

Em Pânico 2 (1997), o jogo precisou se intensificar. As referências se tornaram mais presentes, a contagem de corpos aumentaram e as mortes se tornaram mais brutais. Eventos surpreendentes como a morte de Randy, o guia do terror dos sobreviventes, aumentaram a tensão do espectador. Além disso, a revelação da mãe de Billy Loomis tirou o fôlego do público na época. Mas a motivação insana de Mickey ficou como um delírio para a época – mal o espectador sabia que isso se tornaria algo mais palpável no futuro.

No terceiro filme voltamos para o passado. Pânico 3 (2000) relembra o público que capítulos finais de trilogias costumam retornar para eventos anteriores revelando algo inesperado. De longe está é o filme com a revelação mais chocante da franquia. Apesar de ser surpreendente, as novas informações que Roman traz sobre o assassinato da mãe dele e de Sidney não são muito críveis. A motivação do irmão abandonado da Sidney soa, ainda hoje, como um delírio de Ehren Kruger (Dumbo, de 2019, e co-roteirista de Top Gun: Maverick, de 2022) – o roteirista que entrou no lugar de Kevin para escrever este filme.

Pânico

Com uma trilogia completa e 11 anos de distância, Pânico 4 (2011) surgiu precisando provar sua necessidade. Claro que os fãs da franquia sempre estão dispostos a assistir um novo filme, mas a motivação dessa nova produção precisaria ser forte suficiente para justificar um retorno. E foi a partir dessa exigência externa que o estúdio propôs que o quarto filme fosse o início de uma nova trilogia. Nele, Sidney, Dewey e Gale estariam revivendo os terrores de seu passado, enquanto passavam a tocha para novos personagens.

É preciso entender que, apara além de uma perpetuação da franquia, este Pânico tinha a intenção de inserir a narrativa numa nova década. A hora de repaginar a sua história é agora. O tipo de metalinguagem foi repensado, as referências passaram a ser outras e a violência foi se intensificando. Além disso, aqui a motivação mudou de figura. A coisa mais chocante do longa é a revelação do que fez Jill, prima de Sidney, arquitetar seu plano macabro: a fama.

Assim como Mickey, em Pânico 2, a justificativa do Ghostface se tornou algo abstrato em termos do cotidiano, mas palpável para uma perspectiva sociológica. E, seja pela forma como isso é posto no roteiro ou pela percepção dos espectadores da época, a ideia não convenceu e o filme não decolou. Dessa forma, Pânico 4 se tornou a produção com menor arrecadação da franquia. Isso, somado às críticas negativas dos fãs e especialistas, fizeram com que a ideia de uma nova trilogia se perdesse no tempo. Até que, em novembro de 2019, a Spyglass adquiriu os direitos da franquia e o sonho recomeçou.

Pânico

“Bem-vindos ao ato 3!”

Pânico (2022) é a terceira chance que a franquia teve de emplacar uma nova história para uma outra geração. A partir daqui, a produção mostra com clareza — coisa que não conseguiu em Pânico 4 — que o futuro da narrativa reside na renovação da proposta fílmica. A mudança precisa acontecer no uso da metalinguagem, nas relações e representações sociais dentro e fora das telas e no teor das motivações dos assassinos. E é claro, o Ghostface precisa se tornar ainda mais sádico e brutal. Essas e outras demandas da nova era foram cumpridas no quinto capítulo da franquia.

O estrondoso sucesso do novo longa está por toda parte. O Brasil é, por exemplo, a 6ª maior arrecadação da produção no mundo e a segunda maior na América Latina, com mais de 2 milhões de dólares em bilheteria, segundo dados da Paramount Pictures. É possível dizer que, após outros 11 anos de espera, os fãs de Pânico finalmente receberam o que mereciam e desejavam. A proposta foi mais sombria, brutal e inteligente. O legado de Wes Craven e Kevin Williamson foi honrado e, com certeza o diretor estaria orgulhoso do feito.

A maior sacada do longa de 2022 foi revisitar o original ao mesmo tempo que mostrou sua própria faceta. Assim a produção conseguiu conquistar os fãs mais velhos enquanto se apresentava para a nova geração. Pânico (2022) inclusive brinca com seu novo público ao satirizar a geração z, seus costumes e exigências pseudointelectuais. E é com esse humor ácido — e alguns galões de xarope de milho para o sangue — que o quinto filme conquistou o mundo apresentando sua nova roupagem.

As decisões arriscadas do filme também funcionam. Matar um dos “personagens-legados” (ou “legacy” no inglês), como Mindy chama o Dewey, a Gale e a Sidney, foi o maior risco que eles correram. No entanto, a morte do eterno policial de Woodsboro foi um sacrifício coerente e válido para estabelecer que na nova era tudo é possível. Na narrativa, a corda só se afrouxa um pouco ao redor do personagem de David Arquette no que diz respeito ao seu término com a personagem da Courtney Cox. Soa uma saída fácil e pouco crível para o personagem que o público conhece a forma como a narrativa explica o final do relacionamento dos dois.

Pânico (2022)

Enquanto isso, as outras duas legacy continuam vivas e claramente passam a tocha da trilha de sangue para a personagem de Melissa Barrera. Mas o clima é amigável, então é possível que no futuro vejamos mais de Gale Weathers e Sidney Prescott. Aliás, se a narrativa seguir o formato apresentado no quinto Pânico, as duas legacy devem aparecer para serem sacrificadas, da mesma forma que o Dewey foi. Ou seja, o futuro da franquia finalmente parece residir nas mãos de novatos.

Mas o que esperar das próximas desventuras de Sam, Tara, Mindy e Chad? O quarteto de sobreviventes (mesmo número do Pânico original) deve estreitar seus laços em eventos não muito distantes na nova história. Como anunciado pela produtora, o sexto capítulo da franquia será gravado ainda em 2022 e seu lançamento será em algum momento do ano seguinte. Isso pode levar a crer que o futuro dessa nova era resida nas feridas dos personagens sobreviventes. Na forma como isso afetou eles física e mentalmente. As ansiedades e os traumas da Sam, por exemplo, são retratados como uma realidade que atormenta a personagem principal.

Ou seja, tópicos relacionados à saúde mental podem, se bem trabalhados, definir por completo os próximos passos da franquia. Em Pânico 3, os atores do filme Stab 3 sugerem que os eventos vividos pela Sidney tenham feito ela perder noção da realidade e, potencialmente, transformado a personagem numa assassina. E se isso se tornasse verdade com a Sam? E se, como sugerido na série Scream, da MTV, a personagem principal ficasse presa em seus traumas a ponto de repeti-los? O futuro de Sam e seus amigos está nas mãos do produtor executivo Kevin Williamson, dos diretores Bettinelli-Olpin e Gillett e dos roteiristas Vanderbilt e Busick. Mas se lembre: tudo é possível numa nova era e é sempre alguém que você conhece.

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