5 de maio de 2022

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Crítica: Naquele Fim de Semana troca força narrativa das discussões sociais por suspense excessivo e frágil

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Naquele Fim de Semana (2022)

Apesar da massiva perda de assinantes recente, a Netflix ainda se mantém como o serviço de streaming mais forte do mercado internacional. A plataforma, que surgiu em 1997, já funciona sob a lógica de produzir filmes e séries de acordo com as preferências dos clientes há quase 10 anos. Neste período, o streaming trouxe para o público narrativas fílmicas e seriadas grandiosas e dignas de louros. No entanto, a forma como essa lógica de criação de histórias é feita já gerou projetos fracos e com péssimo retorno dos assinantes, como o mais novo fracasso de crítica 365 Dias: Hoje.

A plataforma é conhecida por usar suas análises algorítmicas para levantar as temáticas que mais têm feito sucesso com seu público. A partir desses dados, os produtores da Netflix encomendam roteiros que não tem como foco principal uma estrutura narrativa sólida, mas a mistura desses temas mais comentados. Com o passar do tempo, o streaming tem entregado filmes cada vez mais fracos, sem força no roteiro e que não performam bem com o público. Alguns dos exemplos mais emblemáticos desses mix desastrosos são The Ridiculous 6 (2015), Zerando a Vida (2016), TAU (2018), Próxima Parada: Apocalipse (2018), I Am Mother (2019), Mentiras Perigosas (2020), Mudança Mortal (2021) e Indecente (2022).

Uma outra alternativa achada pela plataforma é investir nas adaptações – coisa que a produtora tem investido nos últimos anos, principalmente em suas narrativas seriadas. Em 2022, o público já pôde ver o resultado de uma adaptação mal administrada. Uma das primeiras estreias do ano, Indecente falha dolorosamente em imprimir o apelo que a obra original tinha. Nesta mesma linha de fracassos, Naquele Fim de Semana  é outra adaptação que não tem um bom proveito das possibilidades de sua trama.

Naquele Fim de Semana (2022)

A recém mãe, Beth (Leighton Meester), combina uma viagem para passar férias com sua melhor amiga, Kate (Christina Wolfe), na Croácia. A ideia desse encontro era dar um momento de descanso para a mãe e conseguir reaproximar as duas amigas. As amigas decidem sair para aproveitar a noite croata para esquecer dos problemas. A saída, que era para ser um momento de aproximação entre elas, se torna uma confusão entre Beth e Kate. A noite anterior parecia ser um borrão na mente de Beth. Quando ela levanta para tentar esclarecer as coisas com a amiga, percebe que Kate sumiu. A partir daí as férias se tornam uma corrida perigosa para descobrir por quê e quem matou sua amiga. Mas Beth terá que fazer isso sozinha porque logo percebe que não pode confiar em ninguém.

Pensando sob a lógica algorítmica da Netflix, o filme mistura suspense, mistério, feminicídio, machismo e xenofobia. Seja pelo gênero cinematográfico que servia de pano de fundo ou seja pelas temáticas a serem abordadas, é possível imaginar que, se bem trabalhado, o roteiro poderia ter criado um sucesso certeiro. A história de Beth tinha o potencial de instigar o espectador com o mistério do assassinato de sua melhor amiga, com as suspeitas se intensificando e os contextos sociais destrutivos se tornando cada vez mais explícitos. O resultado de Naquele Fim de Semana, contudo, vai pelo caminho oposto.

Os contextos do longa se deixam apagar por essa narrativa com excessos e falhas. A história se desgasta por conta da sensação de alongamento dos acontecimentos em tela. Existe uma dilatação desnecessária na trama. Se ela fosse mais enxuta, possivelmente alcançaria um resultado melhor pelo simples fato de não cansar o espectador durante seus míseros 89 minutos. Além disso, o excesso de reviravoltas no final de Naquele Fim de Semana é cansativo.

Naquele Fim de Semana (2022)

A questão da forma como a figura da mulher é tratada na trama é posta em segundo plano quando claramente deveria ser o foco principal. Da mesma forma, as relações de poder estabelecidas pela sociedade patriarcal também são esquecidas, o que faz com que isso perca a força de Naquele Fim de Semana. Por isso, o plot chega para o público fragilizado. Todos os elementos que deveriam ter sido trabalhados para construir as camadas do filme foram deixados de lado para focar num whodunit sem sentido.

O foco de Naquele Fim de Semana não é quem matou Kate, mas a razão machista, cruel e sangrenta  por trás disso. Da mesma forma, o foco não é a dificuldade de Beth encontrar ajuda para desvendar o mistério, mas o que socialmente representa essa invisibilização da personagem. Os fatores patriarcais, machistas, políticos e sociais são mais fundamentais e poderosos do que as excessivas reviravoltas que acontecem (e, é claro, que são óbvias).

Além da adaptação do livro homônimo de Sarah Alderson entregar uma trama que desperdiça as discussões socioculturais existentes, os personagens são mal trabalhados. A narrativa frágil que chega é reflexo do pouco cuidado com o aprofundamento dos personagens – em especial Beth, Kate e a relação entre as duas. Existem nove personagens com relevância em Naquele Fim de Semana (contando com a protagonista), mas nenhum deles parece ter força efetiva para a trama. Ou seja, a personagem principal e a sua melhor amiga assassinada são jogadas num abismo de esquecimento tal qual o que o subtexto da história tentou (e fracassou) em representar.

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