12 de maio de 2022

Nerd Cult News

O seu blog preferido de Cultura Pop

Análise | Doutor Estranho 2 mostra a importância da autoria e de um foco narrativo centrado

6 min read
doutor estranho no multiverso da loucura

Após o estrondoso sucesso de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (2021), os fãs da Marvel aguardaram ansiosamente pela estreia do segundo longa-metragem sobre Stephen Strange. A produção de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura criou altas expectativas sobre o que ela poderia entregar desde que o diretor Sam Raimi (Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio, de 1981, e Homem-Aranha, de 2002) entrou para o projeto. O histórico do diretor aguçou a curiosidade dos marvetes que passaram a esperar nada menos do que uma nova obra como a trilogia do Homem Aranha (2002-2007) feita por Raimi.

Outra possibilidade levantada com o anúncio da produção e reforçada ao decorrer das etapas do longa era sobre a ambientação do terror em Doutor Estranho e o Multiverso da Loucura. A ideia de ter um projeto com elementos de horror numa obra da Marvel parecia impensada até que os teasers e trailers começaram a ser lançados. A possibilidade jamais havia sido pensada pelo público porque o estúdio dos heróis do Universo Cinematográfico Marvel (MCU) costuma trabalhar com um molde fechado — o qual normalmente envolve doses homeopáticas de drama em oposição às quantidades cavalares de piadas e sequências de ação frenéticas.

Ainda assim, mesmo com as poucas informações sobre Doutor Estranho 2, as discussões começaram como de costume. A defesa e a acusação iniciaram suas falas em redes sociais e fizeram desses espaços palco para devaneios sobre o que poderia vir. A lógica principal dessa disputa vinha de um único fator: a Marvel acostumou seu público com uma fórmula e o medo da mudança gerou pânico. Mas a espera para saber como os marvetes reagirão à produção acabou. O longa chegou aos cinemas brasileiros na quinta-feira passada (5).

Depois de salvar o Multiverso na última aventura do Homem-Aranha, Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) se depara com um novo dilema sobre o Multiverso. Desta vez, América Chavez (Xochitl Gomez) vai parar acidentalmente na Terra-616 e, com ela, demônios interdimensionais desestabilizam o cotidiano de Nova York. A missão do feiticeiro é proteger a jovem heroína dos monstros que a perseguem, mas, para isso, ele precisa descobrir o que está acontecendo e como parar esse ataque. Strange então decide procurar Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen), a Feiticeira Escarlate, para contar com a ajuda dela para desvendar o mistério e salvar Chavez. O que Doutor Estranho não contava era que esse novo problema do Multiverso fosse ser tão sombrio e insano.

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022)

Com uma abertura de 84% no site Rotten Tomatoes, o segundo filme solo sobre Stephen Strange chegou para aumentar ainda mais o embate pré existente ao seu lançamento. Apesar da alta nota no site de críticas, a resposta dos espectadores não tem sido exatamente a de costume. Esse resultado se deve aos elementos autorais que Sam Raimi foi capaz de colocar dentro da trama. O diretor e roteirista americano, ainda com algumas limitações claras, teve brecha para mostrar seu cinema. Doutor Estranho no Multiverso da Loucura é um filme indiscutivelmente encabeçado por Raimi. E é essa marca tão específica e peculiar que explica as avaliações mistas por parte dos fãs.

A clara presença de autoria do diretor entrega um filme com elementos de um terror tipicamente surreal, que brinca com elementos do grotesco e do demoníaco. As experiências prévias de Raimi com longas do gênero (como a franquia A Morte do Demônio e Arraste-Me para o Inferno, de 2009) ficam evidentes em diversos momentos de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura. E entre essas referências visuais, a visualidade do projeto também grita o poder autoral de Sam Raimi. O possível problema dessa presença tão forte do cinema raiminiano está no afastamento do que o público da Marvel está acostumado. Assim como em Eternos (2021), o novo incomodou os fãs que esperam mais da mesma fórmula padrão Marvel.

Apesar desse resultado negativo por parte do público, existe um sol raiando no futuro marvete. O horizonte se mostra propício para projetos mais individuais, no sentido criativo. A Marvel Studios percebeu que quebrar com aquele molde estanque de fazer filmes não levará eles ao futuro, apenas iria prendê-los ao passado. Em contrapartida, existem momentos que também agradam o público mais conservador. Em meio a loucura da abertura total do Multiverso, o espectador consegue perceber estilos, elementos e até alguns detalhes técnicos – como a movimentação da câmera em certas cenas de ação — com o que foi entregue na trilogia do Homem-Aranha, no início dos anos 2000.

Os problemas de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, no entanto, não param na recepção mista do longa. Dois pontos da produção deixam a desejar no que tange ao roteiro. A segunda aventura de Stephen Strange é frenética. Por conta das relações narrativas com o Multiverso, hora isso funciona perfeitamente, mas é algo que incomoda depois de um tempo. E, atrelado a esse atropelo de acontecimentos (que são infinitos), falta um esmero no roteiro. Michael Waldron (Loki, de 2021) entregou uma jornada que precisava se dedicar mais aos três personagens principais. Tanto Doutor Estranho, como a Feiticeira Escarlate e a novata America Chavez necessitavam de um pouco mais de profundidade — em especial as duas heroínas.

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022)

Wanda, apesar de já ser conhecida pelos fãs, precisava de mais momentos dramáticos para justificar suas ações e motivações nos acontecimentos do filme. Da mesma forma, para que a introdução de America fosse mais redonda, seria necessário que o espectador entendesse melhor a vida, os dilemas, poderes e o passado da jovem. Apesar desse gosto de “queria ver mais” que fica martelando na cabeça do público, é inevitável parabenizar os desempenhos da dupla principal, Benedict Cumberbatch e Elizabeth Olsen. Ambos entregaram o seu melhor, conseguindo emocionar e prender a atenção do público do início ao fim, mesmo com as falhas da produção.

Diante disso, é impossível deixar de pensar que certos elementos e passagens do filme se tornam excessos. O (nem tão bom) fanservice costumeiro da Marvel poderia ter dado espaço para um diálogo mais profundo entre Wanda e Stephen ou uma memória que envolvesse America e seus traumas do passado. Assim como em outras produções marvetes, a relação entre expectativas prévias dos fãs x exigências industriais x fanservice se tornou um peso na equação final de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura.

Essas firulas e excessos poderiam ter dado espaço para uma interação mais profunda para a dupla Benedict-Elizabeth. Em vez disso, vimos poucos minutos de Patrick Stewart (Logan, de 2017, e As Panteras, de 2019) em tela que, apesar de ser empolgante, não diz nada ao espectador, além de que o estúdio sabe da importância do ator no papel de Professor Xavier. O público não tem sequer a certeza de que ele pode reprisar mais uma vez o papel ao sair da sessão. Ou seja, assim como a importância de um filme autoral, a Marvel precisa aprender com Doutor Estranho no Multiverso da Loucura que um roteiro bem estruturado e sem buracos é mais importante do que suspiros eufóricos vindos de um fanservice gratuito.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Uma empresa criadora de conteúdos nerds e agora também um clube de assinatura.