25 de março de 2022

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Oscar 2022: Entenda porque Ataque dos Cães é o favorito a Melhor Filme

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Oscar 2022 - Melhor Filme

Em sua 94ª cerimônia, o Academy Awards traz dez filmes emblemáticos como concorrentes ao prêmio de “Melhor Filme”. A lista é diversa e traz narrativas complexas, empoderadas e sensíveis. Alguns certeiros, outros nem tanto, mas todos ficam na mente do espectador. Nenhum dos longas aqui indicados passam despercebidos por quem os assiste. Talvez aqui esteja uma das listas mais assertivas já feitas pela Academia — mesmo que tenham dois favoritos disparados.

 

Premiações | Ataque dos Cães lidera as indicações do Oscar; confira a lista

 

Traumas, medos, inseguranças, superações, guerras, ideologia e amor. Esta é a multiplicidade de temas dos indicados deste ano. Cada um dos dez competidores trilhou seu caminho narrativo construindo universos fantásticos. A sutileza e sensibilidade de filmes como Ataque dos Cães, e No Ritmo do Coração, hipnotizou o público tornando eles nos dois favoritos do ano. Em contrapartida, longas como Não Olhe para Cima, Licorice Pizza e Amor, Sublime Amor são os menos prováveis de ganharem o Oscar por seus respectivos deslizes.

Ainda que existam favoritos, a competição tem sido conhecida nos últimos anos por surpreender o público com algumas cartas na manga. Ataque dos Cães, por exemplo, seria o ganhador certo. Ele recebeu prêmios equivalentes nas principais premiações do cinema, mas existe uma campanha forte para fazer de No Ritmo do Coração o novo campeão do Academy Awards. Fora eles dois, existem outros três filmes que são merecedores e teriam chances de ser vitoriosos (Drive My Car, King Richard: Criando Campeãs e Duna) na noite deste domingo (27).

Oscar 2022 - Melhor Filme

Os Favoritos

A história do principal prêmio desta temporada parece já estar escrita. Todos os termômetros indicam que Ataque dos Cães será o campeão da noite do dia 27 de março. No entanto, é importante entender de onde vem essa sensação de vitória prematura. O longa-metragem escrito e dirigido por Jane Campion é uma ode ao passado de um subgênero clássico numa versão revitalizada que mostra o caminho para o futuro. A produção reconstrói completamente os paradigmas do faroeste através de uma brilhante narrativa dramática e psicológica.

A produção como um todo é incrível. A fotografia de Ari Wegner (Lady Macbeth, de 2016), a trilha composta por Jonny Greenwood (Trama Fantasma, de 2017), a adaptação e a direção de Jane Campion são alguns pontos de destaque que tornam a obra um trabalho fora da curva. Além da parte técnica, o longa contém atuações poderosas que elevam ainda mais a narrativa. Benedict Cumberbatch (Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, de 2021), Kodi Smith-McPhee (Fênix Negra, de 2019), Jesse Plemons (Judas e o Messias Negra, de 2021) e Kirsten Dunst (O Estranho que Nós Amamos, de 2017) dão corpo ao roteiro de Jane de forma certeira e isso rendeu indicações a todos os quatro artistas. No total, Ataque dos Cães está concorrendo a 11 prêmios, sendo um dos mais indicados da noite, e tem chance de levar até 5 estatuetas para casa.

Já a vitória de No Ritmo do Coração seria algo completamente diferente. O longa não é a cara do Oscar, pelo contrário. Assistir ao filme de Sian Heder (Tallulah, de 2016) é como ver um bom filme da Sessão da Tarde. Um filme família, leve e acessível, mas que carrega um debate e uma realidade que merece ser discutida CODA (título original) é extremamente necessário. A sensibilidade presente nas pequenas coisas da produção é algo que conquista o espectador.

Mas o que há de tão hipnotizante nesta produção a ponto de fazê-la levar o Oscar de “Melhor Filme”? No Ritmo do Coração tem algo que há muito não se vê: despretensão. É uma produção claramente preocupada em seu ofício discursivo e reflexivo. Não há espaço para discussões hiper elaboradas sobre o fazer da arte. É um filme emocionante e pronto. Ele se basta. Seu roteiro amarrado, os personagens cativantes e a jornada de descoberta e aceitação da personagem principal ganham o coração de qualquer público. E talvez seja esse resultado focado em contar uma história e emocionar o espectador – atrelado, claro aos acertos e a qualidade de execução da obra – que faça de CODA o filme do ano.

Oscar 2022 - Melhor Filme

Os Bons Concorrentes

Como toda boa competição, sempre existem aqueles concorrentes que quase chegam no troféu e perdem por pouco. E na disputa de “Melhor Filme” de 2022 não seria diferente. Existem cinco filmes que se encaixam nesse perfil: Drive My Car, King Richard: Criando Campeãs, Duna, O Beco do Pesadelo e Belfast. Cada um dos longas ocupa um lugar diferente nesta corrida, onde uns tinham mais chances do que outros, mas todos poderiam ser vencedores se não fossem os dois favoritos.

Ryusuke Hamaguchi e Takamasa Oe trazem uma história extremamente sensível sobre o enfrentamento de traumas. A jornada de Drive My Car é arrepiante do início ao fim através de seus diálogos poderosos. Hamaguchi, em sua direção, capta cenários que falam por si só e transpõe as pautas da produção. Existe uma sensibilidade extrema no roteiro de Hamaguchi e Oe e a sua execução não poderia ser mais efetiva. São 3h de duração que passam num piscar de olhos – olhos esses que estarão marejados uma boa parte do filme. O prêmio de “Melhor Filme Internacional” é certo e Hamaguchi é a segunda opção em Direção (apesar de parecer improvável que Jane Campion perca). Nesta categoria, no entanto, ele parece um pouco mais distante da estatueta por conta do favoritismo de Ataque dos Cães e No Ritmo do Coração, no entanto, a vitória de Drive My Car seria merecida.

King Richard: Criando Campeãs é outro exemplo de um filme despretensioso que acerta cada detalhe de sua produção. O longa, estrelado por Will Smith (Bad Boys para Sempre, de 2020), se preocupa unicamente em ser uma mensagem de superação e uma prova de que sonhos se tornam verdade. Mais que isso: King Richard é uma inspiração para as crianças negras pelo mundo. Assim como as atletas, que servem de base para o roteiro do filme, o elenco é pura força. Will e Aunjanue Ellis conduzem a narrativa com perfeição em suas atuações dignas de Oscar. Apesar da alta qualidade e das várias indicações, é possível que o longa leve apenas a estatueta de “Melhor Ator” para casa.

Oscar 2022 - Melhor Filme

Duna é um épico futurista. A produção tem tudo que o Oscar ama e premia. Uma obra de alto escalão, com uma parte técnica que é um deleite aos amantes de cinema, e um roteiro que tem como base uma das maiores histórias de ficção científica da literatura – e, de quebra, ainda é um remake de um clássico do brilhante David Lynch (Cidade dos Sonhos, de 2001). Tudo isso conspiraria a favor do longa em outras premiações, mas nesta, outros tipos de filme estão mais visados por sua sutileza e sensibilidade. Ainda assim, Duna deve receber os louros em categorias técnicas como Direção de Arte, Efeitos Visuais, Trilha Sonora Original, Montagem e Edição de Som.

Guillermo del Toro (A Forma da Água, de 2017) é conhecido por suas alegorias fantásticas e tenebrosas, mas, desta vez, ele traz a reinterpretação de um clássico neo-noir dos anos 1940, O Beco do Pesadelo. Mesmo longe do seu universo da fantasia, del Toro consegue imprimir a sua marca até mesmo nesta produção, que soa como uma de suas obras menos autorais. O filme é brilhante. A condução da tensão e do mistério do que vai acontecer na cena seguinte, as escolhas de direção, a direção de arte, os diálogos; tudo soa genial, mas o que falta aqui é mais del Toro. Talvez o que não faça de O Beco do Pesadelo um dos favoritos do ano seja a falta que o público sente ao assistir um filme do diretor que não seja deltoriano.

O último dos selecionados para este seguimento dos indicados é Belfast. Talvez este seja o filme mais a cara do Oscar de toda a premiação – mais até mesmo do que Duna. O filme dirigido e escrito por Kenneth Branagh (Morte no Nilo, de 2022) tem qualidade técnica, tem um elenco invejável, cenas marcantes e uma história pessoal do próprio Kenneth. Tudo isso junto engloba a maior parte dos preceitos gerais para um vencedor do Academy Awards, no entanto, esse sentimentalismo das lembranças e vivências do diretor não chegam até o público. Falta conexão com o espectador para que ele se sinta parte daquela história. Belfast se assemelha com Roma (2018) no quesito de narrativa e estética, mas a diferença principal é que Alfonso Cuarón conseguiu tocar quem assistiu o seu filme, coisa que Branagh não foi tão bem sucedido.

Oscar 2022 - Melhor Filme

Os Infiltrados

Aqui estão os três últimos competidores da noite. Eles, com toda a sua qualidade, têm tropeços que não podem ser ignorados e, consequentemente, os afastam do maior prêmio do cinema mundial. Tanto Amor, Sublime Amor, como Licorice Pizza e Não Olhe para Cima tem questões de roteiro que os prejudicam. Clássicos, originais ou críticos, as três produções deixam um gosto um pouco amargo ao final da sessão – cada uma do seu jeito – e isso atrapalhou os resultados dos longas.

Amor, Sublime Amor é a reconstrução de um dos maiores musicais da história do cinema. West Side Story (1961) foi vencedor de 11 Oscars e, até os dias atuais, é um dos filmes mais aclamados pela crítica. O brilhante Steven Spielberg (Jogador Nº1, de 2018) afastou seu olhar de produtor ao dirigir esse remake por questões sentimentais. O diretor tem memórias afetivas com o filme e isso fica explícito. Existe amor na obra. Aliás, ela é fruto de amor dentro e fora das telonas. Com isso, faltou um olhar mais frio para tornar a adaptação desta história shakespeariana algo mais palpável para os tempos atuais.

Licorice Pizza, por sua vez, é impecável em todos os aspectos técnicos. Paul Thomas Anderson (Vício Inerente, de 2014, e Trama Fantasma) se prova cada dia mais inteligente em suas escolhas e seus projetos. Existe, contudo, uma parte da narrativa que incomoda e não tem como ser ignorada. A trama do longa parece ter saído de uma sessão retrógrada dos anos 1970. Não é razoável acreditar que uma história tão problemática como a relação entre Alana e Gary faz sentido nos dias atuais.

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Já o último concorrente se perde completamente dentro do cerne de sua narrativa. Não Olhe para Cima deveria ser uma sátira brilhante sobre os dilemas políticos e reacionários atuais. Adam McKay (Vice, de 2018) tinha total capacidade de fazer desta a sua mais nova premiada produção, mas talvez tenha sido a sua vontade de cutucar as figuras ali representadas que tenha feito ele se perder. O elenco era capaz de sustentar uma comédia ácida aos desgovernos da atualidade, mas o roteiro se estende demais e o resultado parece ter saído de um enorme textão de desabafo do Twitter – ou mesmo de uma fanfic apocalíptica.

Os três concorrentes citados tinham chances de levar a estatueta para casa se tivessem podado os excessos ou tido um olhar mais crítico sobre a própria produção. Na premiação, eles devem sair com pouquíssimos Oscars por conta desses descuidos. O que fica é uma lição sobre atenção. Atenção a proximidade com o objeto a ser criado, atenção a autocrítica sobre suas próprias críticas e atenção ao tipo de história que se quer contar. Neste ano, a embalagem não vai enganar o conteúdo e só as produções mais redondas têm chances reais de levar o prêmio para casa.

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